sábado, 5 de julho de 2014

Copa aquece mercado do sexo na Zona Sul do Recife

 Garotas de programa aguardam clientes na Avenida Conselheiro Aguiar, Boa Viagem. Fotos: Roberto Ramos/DP/D.A Press

As camisas de várias seleções que disputam a Copa denunciam. Aquela não é uma noite como outra qualquer em uma das casas noturnas de entretenimento adulto mais conhecidas da Zona Sul do Recife. Idiomas e sotaques distintos corroboram que há algo diferente no ar. De alemães a mexicanos, de norte-americanos a franceses e argentinos... Visitantes de todas as partes, que vieram ao Recife não somente pela maior festa do futebol. A passagem dos estrangeiros pela cidade inegavelmente aqueceu os negócios do turismo sexual na capital pernambucana. Em busca do propalado “estereótipo” da mulher brasileira, viajantes se dispuseram a pagar muito dinheiro por momentos de diversão e prazer na noite recifense.

Entre um drinque e o outro, mulheres se aproximam sem cerimônia dos estrangeiros. Não há barreira linguística que impeça o contato mais próximo. Um olhar enviesado, um rebolado, a permissividade de passar a mão, algumas mímicas… Uma espécie de jogo de sedução que quase sempre termina com um acerto para um programa. “Nós recebemos todo tipo de moeda: peso, dólar, euro... Só não vi, ainda, libra, que vale muito, né? Está sendo uma época muito boa, pois estamos arrecadando mais do que conseguimos nos dias normais. Como temos uma noção do câmbio, não corremos muito risco de sermos enroladas pelos gringos. Eu mesmo estou indo para Salvador nos próximos dias para atender dois americanos”, conta uma morena, sem revelar seu nome.

Mas também há aquelas que se incomodam com a presença maciça dos estrangeiros. “Eu já tenho uma vida boa. E, por isso, não tenho muito saco para ficar pegando qualquer programa. Os gringos são muito mal-educados. Algumas meninas sofreram bastante. Eu tive uma certa sorte nas escolhas que fiz. Para mim, a Copa não foi tão boa. O fato é que arrecado mais dinheiro sem a Copa do Mundo (algo em torno de R$ 3,5 mil a R$ 4 mil nos meses ruins, segundo ela). Estou doida que acabe logo. É claro que o dinheiro fácil seduz”. Simples assim. Sem rodeios, revela Simone, provavelmente o nome de guerra, 30 anos.

Ela resumiu o que ainda lhe faz estar, quase todas as noites, impecavelmente arrumada, em uma das casas noturnas mais badaladas da Zona Sul. Não chega a circular no hall das top 5 da boate, mas também não passa despercebida. Cabelo escovado, batom e perfume bem escolhidos, cativa também pela desenvoltura na conversa. Talvez essas sejam algumas das principais características dela para seduzir os clientes. “Sei que aqui tem meninas lindas e bem mais gostosas do que eu. Mas não me troco por nenhuma delas. Sei fazer coisas que nenhuma faz. E nesta profissão você tem que usar todas as armas de sedução”, enfatiza.

Jovens assim foram procuradas pelos estrangeiros durante todo o período do Mundial na cidade. Loiras, morenas, negras... De todos os tipos. Relatos de moradores dão conta de que até engarrafamentos foram registrados em frente à boate no dia do confronto entre México e Croácia, que trouxe milhares de torcedores à cidade. Os mexicanos, aliás, foram bem avaliados pelas garotas da casa. “Eles são muito animados, não ficam enrolando muito para fechar negócio. Já os argentinos, esses não estão com nada”, avalia uma delas. Não por acaso. A mesma garota acabou embolsando 400 dólares para sair com um deles. “O dinheiro já está no bolso, se ele quiser ir vai, se não quiser, não estou nem aí”, comemora antes de deixar o local com uma quantia de três a quatro vezes maior que o valor médio do programa, que varia entre R$ 200 e R$ 300.

Na rua, o negócio também foi bom

Na Avenida Conselheiro Aguiar - conhecido ponto de trabalho de garotas de programa na Zona Sul do Recife -, os estrangeiros também esquentaram o mercado do sexo. Na rua, os preços são mais baratos que os cobrados aos clientes das tradicionais casas de strip-tease da cidade. Até as profissionais que frequentam os nightclubs cobram menos quando oferecem seus serviços nas calçadas e esquinas. Para os gringos, um programa sai, em média, por 100 dólares, podendo variar de 75 a 200 dólares, a depender do poder de barganha de ambas as partes. Próximo à esquina com a Wilfrid Russel Shorto, tem até intérprete para auxiliar na comunicação.

Flávia, como se identificou, diz que nasceu com os dois sexos, começou a fazer programa aos 14 anos (ela afirma ter 57) e que foi na rua, em 1999, que conheceu o atual marido, um empresário inglês que a levou para a Europa. Lá, conta, teria aprendido a falar oito idiomas. Ainda que com o sotaque muito carregado para quem diz morar fora há tanto tempo, pelo menos o idioma de Shakespeare ela fala. E isso já é suficiente para intermediar as negociações. Fazendo questão de frisar que não é cafetina, ela cobra ao estrangeiro uma comissão de 50 dólares para cada programa de 100 dólares fechado. E assim, ganha as noites na Conselheiro Aguiar.

Prostitutas se animam com o pagamento em moeda estrangeira oferecido pelos estrangeiros, mas consideram muitos deles grosseiros

Mesmo após o fim dos jogos na Arena Pernambuco, ainda é fácil ver estrangeiros abordando profissionais do sexo na avenida. Enquanto a reportagem conversava com algumas prostitutas em frente a uma das mais badaladas casas de strip-tease de Boa Viagem, dois russos chegaram a pé, perguntando preços e agarrando as garotas de forma desrespeitosa. “Comigo, se quiser pegar, tem que pagar”, disse uma loira de 25 anos, observando a cena. Os dois saíram de lá sem fechar acordo. Nem sempre é assim.

As meninas contam que os estrangeiros pechincham muito e que a procura maior foi a dos mexicanos. Certa noite, contou a mesma loira, uma van com dez mexicanos e um intérprete pernambucano parou na avenida e levou dez garotas para um motel da Zona Sul. Cada casal foi para um quarto diferente e, no final, as meninas receberam 75 dólares por programa. Em geral, entretanto, cobra-se adiantado.

As que preferem a rua às boates de diversão adulta usam a menor concorrência como argumento. “Lá (na casa noturna), é uma menina em cima da outra”, disse uma delas, confirmando que há clientes que saem das boates para buscar profissionais do sexo na rua.

Quando questionadas se preferem brasileiros ou estrangeiros, elas ficam com os gringos. “Eles pagam mais”, justifica uma morena, sem titubear. Fora do período de Copa do Mundo, quando a quantidade de clientes estrangeiros é escassa, o preço do programa é praticamente tabelado na avenida: R$ 100.

No Centro, turistas passaram longe

O aquecimento no mercado do sexo ficou restrito à Zona Sul do Recife. Padrão Fifa mesmo. Nos tradicionais cabarés do Centro da cidade, os gringos passaram longe. “Só quem está faturando é a Fifa. Estou doida que acabe logo esse negócio de Copa do Mundo”, dispara a funcionária responsável pela limpeza do estabelecimento Cláudio Drinks, Apertada, como é conhecida na noite. 

O “inferninho”, localizado no fim da Avenida Dantas Barreto, não tem recebido nem mesmo as visitas dos habituais clientes brasileiros. “O movimento está ruim. Em dias normais, faturamos na noite algo em torno de R$ 900 a R$ 1 mil. No dia do primeiro jogo do Brasil, só apuramos R$ 260. A Copa das Confederações foi bem melhor para nós”, explica Cláudio Fernandes, que investiu para atrair a clientela. “Coloquei uma televisão de 42 polegadas e uma decoração de luzes nas cores da Seleção Brasileira. Mas, pelo visto, a tendência é só piorar. Não está compensando abrir em dias de jogos. E se o Brasil se desclassificar, aí é que danou-se tudo”, acrescenta o comerciante, atuante no ramo do entretenimento há 25 anos. 

Os poucos clientes que apareceram no Cláudio Drinks vieram da Fan Fest e, geralmente, com um teor de álcool bastante elevado. “Só sobraram os bêbados. Foi a maior mentira dizer que o comércio iria melhorar”, desabafa Cláudio. Mas nem sempre foi assim. O proprietário do bar conta que na Copa de 2010, realizada na África do Sul, as mesas do pequeno salão ficaram lotadas. “Não sei se é também pela atual situação do país. Do nosso e dos deles (os turistas). Tem muita gente pagando aluguel e sobrevivendo com um salário mínimo”, recordou. As esperanças de seu Cláudio em ver novamente o espaço lotado se renovam com a proximidade das eleições. “Quando tem comício no Carmo, aqui lota. Nas eleições a turma gasta mais”, revela.

Enquanto observa a canja de galinha de fogo, Rosinha - gerente da Casa do Amor, localizada na mesma calçada do Cláudio Drinks - também dispara contra o fraco movimento. “Está sendo ‘uó’. E quando o Brasil joga, não passa nem carro por aqui. Acho que os turistas estão ficando no Recife Antigo. Uma pena”, lamenta Rosinha.

Com Informações do Diario de Pernambuco.

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